26.5.10

Crise 1

Tudo está em movimento ao meu redor. Que coisa óbvia, não? Eu sei, eu sei que é tolo fazer um comentário desses mas, de uns tempos pra cá, tenho notado que o mundo está girando numa velocidade muito rápida e não estou conseguindo acompanhar. Lembrei-me da época em que era criança, passava o dia inteiro brincando, resolvia os maiores problemas de matemática em 15 minutos (com muito suor e concentração) e já estava novamente brincando, muitas vezes sozinha em meu mundo imaginário e outras tantas vezes, junto com a turma da rua, em conversas infindáveis e histórias que ficariam eternizadas. Sinto tanto orgulho da minha infância, de poder ter aproveitado cada detalhe de cada dia, de ter feito cada coisa no seu tempo, curtindo cada fase de maneira intensa, em uma caminhada infinita de evolução. Como me esquecer do companheirismo dos amigos, da troca de favores e segredos, das brigas por ciúmes ou inveja do outro, das gargalhadas a todo momento e, principalmente, da mente livre de preocupações? Ah, que saudade da mente descansada! De se preocupar somente com os novos brinquedos, com os novos amigos, com a hora em que a mãe ia chamar pra entrar, com o fim das férias ou com os meninos da rua de baixo, que insistiam em guerrear com nós: as meninas da rua de cima. E a época de Copa? Nossa rua ficava linda, toda pintada e com enfeites no alto. Todo mundo se unia pra ver os jogos e comemorar, gol a gol. E os meninos? Depois que eles surgiram, nossas vidas nunca mais foram as mesmas. Eu passei a conhecer o universo masculino, cheio de nojeiras, palavrões, xingamentos, violência e gritos. Conheci os quatro homens da minha vida e que construíram comigo muito do que sou hoje. O Gabriel, o menorzinho, com suas manhas, seus medos, seu ciúme exagerado dos irmãos e defensor de toda a família; mesmo após as brigas e tapas, era sempre o primeiro a correr em busca de mais brincadeiras e atenção - me ensinou muito sobre perdão e amor. O Gustavo era o próximo: tínhamos a mesma idade mas ele era bem menor em altura; era loiro, tinha olhos azuis e um sorrisão lindo que encantou todas nós logo no primeiro dia - com seu carinho, seus abraços, suas brincadeiras às vezes maldosas e sua disposição em estar sempre presente, me ensinou sobre companheirismo, sinceridade e união. Ah, o Vinícius. Se bem me lembro, ele era o mais lindo dos irmãos: seu sorriso me deixava sem ar e seu jeito descontraído de se vestir e caminhar me faziam querer ficar cada vez mais próxima dele. Ele era diferente de todos os outros e nunca queria ficar na rua conosco (cada vez que ele aparecia eu torcia pra que não fosse embora, eu o admirava muito), sempre estava jogando algo no computador ou no video game e parecia nos achar muito infantis para ele; talvez estivesse com razão mas mesmo com toda essa distância, com ele aprendi sobre família, respeito, tolerância e dignidade. Para completar o time já quase perfeito, tínhamos o Felipe, meu primeiro grande melhor amigo. Ah, que saudade daquele abraço e daquele carinho que só ele me dava! Que saudade das horas deitada em seus braços, ouvindo-o contar histórias reais sobre pessoas importantes, divagações sobre a vida e nossa existência, filosofias sobre amizade e amor. Gostaria de tê-lo por perto pra sempre, sinto muita falta de sua atenção e paciência. Com ele eu aprendi sobre respeito, educação, união, afeto e amizade - eu o amei mais que tudo naquela época. A vida passou tão rápido desde então e aquelas coisas boas do passado se transformaram em dor de cabeça e problemas nesse presente chato. Não quero mais acompanhar esse ritmo louco dos adultos, quero voltar ao meu universo da infância inocente e curiosa de antes. Eu estou pronta, já posso voltar. Adeus.

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