29.6.10

Filhos

- Nem gosto de falar de família, não... (um silêncio amargurado) eu tenho três filhos, sabe? Qualquer um queria ter os filhos que eu tenho, são os filhos que todo mundo quer mesmo... (novamente o silêncio enquanto seleciona as palavras menos perfurantes) e eu sou o pai que muita gente por ai queria ter...
- Ah, eu amo os meus filhos, sempre tenho que ver eles
- ... mas meus filhos pra mim não tem valor nenhum... (sangra devagar com cada frase dita) eu preferia ter um filho bandido, Deus me perdoe, mas que batesse no peito e falasse 'eu amo meu pai'.
- (espanta-se)
- Eu preferia ter uma filha put* que batesse no peito e dissesse 'eu amo meu pai' (desola-se)
O amargo das lembranças individuais interrompe a conversa como uma facada no ar.
- Meus filhos... eu tenho sempre que ver, se fico um dia sem ver esses meninos, não me aguento de saudade... e olha que já são tudo crescido...
- Meus filhos não querem saber de mim... eles pensam que porque eu separei da mãe deles é cada um no seu canto assim... não me procuram, não vou correr atrás. No meu aniversário, em dia de ano... ninguém tá nem ai pra mim. Boa mesmo é a minha mãe, essa sim, tem noventas anos e tá mais enxuta do que eu... se eu fico doente se preocupa e prepara tudo do jeito que eu gosto... essa eu faço questão de ver todo dia, agora os filhos? (a tristeza volta em uma jorrada intensa) Se eu pular na água minha mãe pula atrás pra me ajudar... meus filhos não querem nem saber se morri ou se sei nadar...
(pensamentos longe, lembranças ardentes)
- Meus filhos? Eu vevo minha vida aqui e eles vevem a deles lá... bem longe...
E calou-se, com uma bola gigante de amargura e dor em sua garganta, afastando a saudade e as memórias cruéis de sua mente e coração magoados.

28.6.10

What if

What if there was no light?
Nothing wrong, nothing right?
What if there was no time
And no reason or rhyme?
What if you should decide
That you don't want me there by your side?
That you don't want me there in your life?

What if I got it wrong
And no poem or song
Could put right what I got wrong
Or make you feel I belong?
What if you should decide
That you don't want me there by your side?
That you don't want me there in your life?

Oooh that's right
Let's take a breath jump over the side
Oooh let's try
How can you know it when you don't even try?
Oooh that's right

Every step that you take
Could be your biggest mistake
It could bend or it could break
That's the risk that you take
What if you should decide
That you don't want me there in your life?
That you don't want me there by your side?

Oooh that's right
Let's take a breath jump over the side
Oooh let's try
How can you know it when you don't even try?
Oooh that's right

Oooh thats right
Let's take a breath jump over the side
Oooh let's try
You know that darkness always turns into light
Oooh that's right

Sob duas rodas

E como foi que este acúmulo de problemas chegou no estado em que estamos? Onde foi que a linha reta, sempre em frente, encurvou-se à direita em uma estrada de mão única? E por que, cargas d'água, não havia um retorno depois de 200m? Adivinhe para quem sobrou a culpa pelos estragos? Claro, para quem estava guiando este veículo sem freios - eu. E se sou mesma a principal suspeita pelos acidentes ocorridos, a única coisa que me resta é lamentar-me. Estranho, gozado, complicado. Sentei-me à sarjeta esta manhã para relembrar o quão amarga é esta viagem em que me encontro. Sem bagagem vou, sem bagagem venho e ao deparar-me com os diversos cruzamentos perco-me e recuo, como sinal de alerta. Sigo em frente para um caminho sem volta, perigoso. Encontro-me por vezes em uma encruzilhada confusa e me deparo com uma única escolha a tomar. Me perco, sem dúvida, até localizar as placas que me indiquem um caminho seguro até a paz. Deixo tudo pra trás, abro mão, caminho só e agora vou a pé, para aproveitar melhor e observar o sol se pôr.

25.6.10

Dica

"Um homem inteligente falando de mulheres:

Alimentação Correta
Ninguém vive de vento. Mulher vive de carinho. Dê-lhe em abundância. É coisa de homem, sim, e se ela não receber de você vai pegar de outro. Beijos matinais e um 'eu te amo’ no café da manhã as mantém viçosas e perfumadas durante todo o dia. Um abraço diário é como a água para as samambaias. Não a deixe desidratar. Pelo menos uma vez por mês é necessário, senão obrigatório, servir um prato especial.

Flores
Também fazem parte de seu cardápio – mulher que não recebe flores murcha rapidamente e adquire traços masculinos como rispidez e brutalidade.

Respeite a natureza
Você não suporta TPM? Case-se com um homem. Mulheres menstruam, choram por nada, gostam de falar do próprio dia, discutir a relação... Se quiser viver com uma mulher, prepare-se para isso. Não tolha a sua vaidade É da mulher hidratar as mechas, pintar as unhas, passar batom, gastar o dia inteiro no salão de beleza, colecionar brincos, comprar muitos sapatos, ficar horas escolhendo roupas no shopping. Entenda tudo isso e apoie.

Cérebro feminino não é um mito
Por insegurança, a maioria dos homens prefere não acreditar na existência do cérebro feminino. Por isso, procuram aquelas que fingem não possuí-lo (e algumas realmente o aposentaram!). Então, aguente mais essa: mulher sem cérebro não é mulher, mas um mero objeto de decoração. Se você se cansou de colecionar bibelôs, tente se relacionar com uma mulher. Algumas vão lhe mostrar que têm mais massa cinzenta do que você. Não fuja dessas, aprenda com elas e cresça. E não se preocupe, ao contrário do que ocorre com os homens, a inteligência não funciona como repelente para as mulheres.

Não faça sombra sobre ela
Se você quiser ser um grande homem tenha uma mulher ao seu lado, nunca atrás. Assim, quando ela brilhar, você vai pegar um bronzeado. Porém, se ela estiver atrás, você vai levar um pé-na-bunda.

Aceite: mulheres também têm luz própria e não dependem de nós para brilhar. O homem sábio alimenta os potenciais da parceira e os utiliza para motivar os próprios. Ele sabe que, preservando e cultivando a mulher, ele estará salvando a si mesmo.

É meu amigo, se você acha que mulher é caro demais, vire gay.
Só tem mulher quem pode!"

Luiz Fernando Veríssimo

23.6.10

Corra

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
Me recuso a ser gente grande, a pensar como uma adulta chata, a te aguentar reclamando sempre.

CHEGA!

Chega de trabalho chato em que exigem de mim o que eu não quero dar, em que tenho que esconder o jogo e segurar milhares de gritos que habitam meu ser.
Chega de inventar sorrisos e amores inexistentes. De disfarçar as mágoas e de, simplesmente, seguir em frente.

Chega, chega e CHEGA!

Chega de você também, cresça logo, não te aguento mais neném. Mas cresça só sua mente, assim como eu tenho desenvolvido a minha. Porque crescer de corpo e alma irrita qualquer um. Porque ser adulto é ser contrário a si mesmo e é chato demais.

CHEGA!

Alívio imediato

Foi anteontem que passei a desenvolver um certo senso de equilíbrio. Eu sou, por natureza, um tanto desequilibrada normalmente mas foi anteontem, em seus braços, que passei a me achar. Ainda bem que eu te encontrei, sabia? Sei que somos bem diferentes, sei que sou grosseira e indiferente, sei que não habito o universo que você habita. Ora, vejam só, nos encontramos por um acaso e não quero mais te abandonar. É tão bom estar livre para sorrir a qualquer momento e te beijar sem precaução. Livre para abraçar, apertar, esmagar, dominar, manter você juntinho de mim o tempo necessário para suprir meus mais profundos medos e as minhas eternas saudades. É tão bom perder a noção do espaço, do tempo, da vida e saber que para qualquer coisa, você estará ali, bem ao meu lado, me dando a mão. É tão bom te ter, não quero que vá embora nem quero te perder por ai. O alívio de ter alguém pra caminhar junto com você é impagável.

22.6.10

E voltou

Todos os conflitos do mundo estão na minha barriga. Estavam, posso dizer. É que sou uma inconstante em variáveis locomotivas divagando em ilusões complexas e destemidas. Desculpe, gosto de viajar nas palavras. Como dizia, minha mente tem entrado num conflito absurdo e meu universo está cada vez mais desfocado. Tudo o que você me diz me leva de volta ao nosso mundo, à nossa pequena bolha distinta e simples. Fico naquela era mesosóica, sonhando com um passado tão distante e tão inatingível. Sinto tanta saudade, são tantos pensamentos e conceitos, tanta necessidade de ti e de mim. Deixo-me ai, com você, guarde-me com carinho pois precisarei de mim mais tarde. Quanto à você que me põe em conflito, que bagunça meu mundo e tira minha razão, comporte-se e aguente-me pois estou sempre em mudança e chega, cansei de falar.

O Efeito Sombra

"O conflito entre quem somos e quem queremos ser encontra-se no âmago da luta humana e a dualidade, na verdade, está no centro da experiência humana.

Somente ao abraçar nossa dualidade é que nos libertamos dos comportamentos que poderão potencialmente nos levar para baixo.

Quando nos pegamos em meio a um comportamento que julgamos inaceitável, corremos e nos escondemos, torcendo e rezando para que aquilo desapareça. A sombra não é um problema a ser resolvido ou um inimigo a ser vencido, mas um campo fértil a ser cultivado. Embora ignorar ou reprimir o lado sombrio seja a norma, a verdade soberana é que correr da sombra apenas intensifica seu poder.

Mantida oculta, a sombra é uma caixa de Pandora repleta de segredos, que tememos destruírem tudo o que amamos e gostamos. Porém, se abrirmos a caixa, descobrimos que aquilo que está ali dentro tem o poder de alterar radicalmente nossa vida, e de forma positiva."

20.6.10

Trilogia do Amor

"Para Rosa, que nunca teve medo do ridículo e tampouco de ser contrária a si mesma - tudo pelo amor."

16.6.10

Acorda-se

Me desfaço dos meus planos, voo alto pra te alcançar. Sinto seu toque em meus cabelos, deslizando por meu rosto encantado com sua presença. Te abraço e, ao sentir seu cheiro, desmancho-me em pequenas nuvens embaladas pela brisa suave do vento. Sem perceber, me encaixo em seus braços para um descanso merecido e o sorriso em meu rosto torna-se inevitável.


O sonho era real demais. Agora acabou.

I can't believe!

But I never told you
What I should have said
No, I never told you
I just held it in

And now,
I miss everything about you
I can't believe that I still want you!
And after all the things we've been through
I miss everything about you
Without you

14.6.10

Valentine's Day

A experiência foi marcante, jamais esquecerei, obrigada. Todo o planeta estava em sintonia para que nós ficássemos juntos ali, na alegria daquele momento tão mágico e só nosso. Já estou com saudades, você sabe. Já lhe quero de novo aqui pra cuidar de mim pelo resto da vida. Seus abraços e beijos me aquecem e modificam todos os meus sentimentos. Me rendo a você, não tenha dúvidas, hoje em dia sou toda sua. Nosso universo é distante dos demais, me dissolvo em cada toque e liberto qualquer mágoa ou preocupação. Nosso primeiro dia e primeiro começo, o início de algo sem previsão de término e tempo, porque é paralelo a tudo, é longe e intocável, é dentro e profundo. Eu quero estes dias todos os dias, só nós.

B5

É difícil de acreditar como meus conceitos mudaram de uns tempos pra cá. Tantos sonhos, planos, anseios, medos e dificuldades que antes pareciam dominar minha vida e serem extremamente importantes, hoje tornaram-se simples, singelamente banais (...)

Con-ti- fusão

Não sei definir mais nada, as definições se perderam na confusão que meu corpo e mente mergulharam.

Estou na mais pura confusão. Vai mente, ajeite-se!

And I'm on my way to believing

Maybe I know somewhere deep in my soul
That love never lasts
And we've got to find other ways
To make it alone or keep a straight face
And I've always lived like this
Keeping a comfortable, distance
And up until now I swored to myself
That I'm content with loneliness,
Because none of it was ever worth the risk

But you are the only exception

11.6.10

Ira-da

Estou irada. Estou irritada com o mundo. Não tenho ninguém em específico para ficar brava, não odeio ninguém, são todos aceitáveis para mim. Mas estou brava, com algo maior e não compreensível. Estou com minha mente cansada e irritada. Estou estou e estou. Hoje vou rasgar o verbo, vou gritar pro mundo, vou falar palavrão. Só na minha mente, é claro. Hoje vou bater em alguém e estourar o vidro da janela. Só na minha imaginação. Quero destruir tudo sem me preocupar com o que vão falar ou com alguma punição. Estou sanguinária, desajuizada, sem razão. Me perdoe, minha mente vaga em um universo negro e incômodo. Meu corpo carrega o nervoso e tenho que controlar minhas ações. Hoje estou de alma pesada, não há o que fazer. Me perdoem aqueles que me julgam santa. Todo mundo peca e todo mundo tem o que aprender.

10.6.10

Sequestro

"Aquela mulher tinha, diante de si, uma longa viagem a ser feita. Viagem de retorno. Viagem no tempo. Ela precisava retornar ao momento em que permitiu que o homem recém-chegado tomasse posse de sua vida. Precisava voltar para ela mesma. Precisava redescobrir as estradas que a reconduziriam à sua subjetividade, e nela reaprender a viver.

Ela foi vítima de um sequestrador. Foi vítima de um roubo cruel. Não, não foi um roubo material, mas um roubo mais profundo. O sequestrador chegou no momento em que sua vida estava frágil. Descobriu nela uma vítima fácil. Agiu de forma violenta. No princípio, uma violência velada; depois, a violência declarada, gritada para quem quisesse ouvir."

Quem me roubou de mim?

8.6.10

Retrato dele, nó na garganta

"Meu vô Laco era branco e leve, sentado à porta. Respirava baixo. Tinha nos olhos resto de espanto: era cego. E no cegar sequer sabia a gente, na cadeira anoitecia, quieto, quieto, entre galinhas e sapos. Havia escuro, mas no rosto do vô as duas velas, até minha mãe, sua filha, soprá-las com voz e braço, ternos. Era plácido; inimigo do vento. Às vezes quis falar-lhe, dizer verso, dizer: vô Laco, o senhor lembra que são bonitas as galinhas? Dizer: vozinho, quer que eu te conte essa figura de revista? Não disse. Meu vô Laco era perecível. A gente ficava sem jeito de amá-lo. Cheirava morno. Vestia casaco, seu único, de linho marrom. Casaco de baús. Nos bolsos, guardava as mãos, muitíssimo. Muitíssimo ruminou segredo na boca vazia de dentes. Mastigava – os lábios cerrados, beija-flor de asa – algum caramelo eterno. Gostava, sim, de caramelos. Mas o doutor lhe proibira açúcar: a filha escondera em terríveis potes as doçuras todas da casa. Não raro a gente o via na cozinha a tatear, cheirar, derrubar xícaras. Sumiam nacos de rapadura e chocolate, fatias de bolo – que coisa feia, o senhor não tem vergonha? E o vô sorria, desentendido. Uma vez me chamou: Julinho. Então ele me sabia? Tirou do bolso chicle de hortelã. O sol, monótono, se punha. Houve barulho: de grilo, rádio, cão. Fiquei assim, com ele, ao pé da porta – silencioso, diminuto, a estourar bolas. Um velho sentado em cadeira preenche os quintais do mundo. Não há não vê-lo; não pensá-lo. Um velho vive porque a gente o vê, a gente pensa: quando ele for, o que será? Pois se ele tem a idade do tempo. A gente ri do que ele fala, diz: está caduco. Um velho atravessa o dia muito só, lembrando, navegante de horas. Leva a cadeira ao quintal, de manhã; à noite a recolhe. Entrementes, o nada supremo, as cozinhas. Não disse: quer um gole do meu guaraná? Que eu te faça chapéu de jornal? Ele era pouso pros aviões da gente – gigante doce, inerte. Decerto, entrementes, mastigando, quis dilúvio, quis incêndio, morreu, morreu – sequíssimo e intacto. E já não era vô Laco; era o horror das cadeiras sem velho. Foi velado, sobre a mesa. Vieram parentes, com choro. Lá fora, o burburinho das aves. A filha penteara-lhe o cabelo, pusera-lhe sapatos, um casaco outro, novo. Eu sério, homenzinho, as pestanas inquietas. Amei-o com atraso. O que é de um morto esconde-se em armário, atrás de porta. É um palpitar no escuro. A gente o liberta, enfim – e está mofado. Do vô, era o casaco. Pendia (tão seu único, tão marrom) de algum cabide firme. E vi – que ditosas, achadoras de tesouro, invadiam-lhe os bolsos mil abelhas e formigas."

Ana Santos

Chapéu-coco, saia de pregas

"É o parque em inverno de muitos verdes, de: pipoca, algodão-doce, cata-vento. Estamos envoltos em lã. Alguém toca realejo.

Vemos – que o moço de chapéu-coco senta-se a um canto, a outro a moça de saia de pregas. Ignoram-se. Ambos escondem cinzas, poucas, no coque e sob o chapéu. Têm o rosto cansado, mas sereno.

E sabemos – que o moço, matemático, perdeu a mulher pra cantor (de boleros). Às vezes, chora. Não tem vícios. Gosta de carrosséis, à noite. Cultiva cravos.

A moça nunca arranjou marido. É enfermeira (mas quis ser trapezista). Quer filha, pra chamar de Alice. Sente frio.

Se o moço visse a moça, se a moça visse o moço, haveria comoção, queda de amores. Piscariam os grandes olhos tépidos. O moço daria à moça o cravo em sua lapela, seu negríssimo sobretudo. Mentiria – que é muito poeta, tocador de acordeão.

A moça estenderia a mão com luva, tentaria sorriso nunca usado. Saberiam, ambos. Dar-se-iam o medo de que o outro morresse, fugisse – o acender de luzes pra ver se o outro tem um corpo, e dorme.

Se vissem, apenas vissem, ela seria Mafalda, ele Armando, de sobrenome mesmo. Assinariam papéis. Na boda, Mafalda usaria lilás, já tão cheia de Armando, de Alice: Alice seria frágil, de doçura tanta... Teimaria em andar descalça (menina, nesse chão gelado!), enquanto a mãe lhe tricotasse longas meias, e para o pai um cachecol vermelho.

Se, apenas se, iriam ao circo, andariam de carrossel, à noite – Alice sorrindo, sem os dentes da frente. Seriam três, por aí, tão juntos (cuidado com o vento, os carros, o sangue, os insetos). Seriam três, e a certeza de um beijo, se o quisessem, e não respirar sozinho.

Mas eis que chega a hora de partimos. É cada vez mais tarde. O moço, que tinha nas mãos o chapéu-coco, devolve-o à cabeça. A moça ajeita a saia de pregas. Levantam-se.

E caminham, os dois, para ruas opostas, na direção de prédios muito altos."

Por Ana Santos, fofíssima.

E me recordo

Estou sentindo tanta saudade. O tempo todo, todo o tempo. Lembrar daquelas tardes com você me dói em cada partezinha do corpo. A sensação de companheirismo, de poder contar com alguém que estava lá para mim era fantástica. A falta de preocupação com o tempo, com as responsabilidades, com a vida! Éramos só nós, desfrutando da adolescência de maneira racional mas tão proveitosa! Lembro-me das gargalhadas que dividíamos em meio a tantos assuntos bobos e divertidos. Tantas conversas sobre nós, sobre nosso universo, nossos amigos e nossos medos futuros; tudo tão descontraído que nem parecia real. Minhas crises diárias de ciúmes e o seu jeitinho meigo de me provocar, falando sobre seu gosto por outras meninas e coisas do gênero. Lembro-me claramente como isso me incomodava e agora consigo até imaginar o meu rosto toda vez que você tocava nesse assunto. Era óbvio, né? Era ridiculamente óbvio que eu morria de ciúmes de você. Mas também, pelo que eu me lembro, você era somente meu naqueles tempos, injusto te dividir com qualquer outra. Eu te compreendia e sabia como cuidar de você. Eu era metade eu, metade você. Sinto sua falta.

Reclame 1

É complicado descrever o que eu sinto. O passado está tão presente em mim, como se tudo aquilo ainda fosse real, para sempre. Inesquecíveis momentos nós passamos juntos, compartilhando histórias e experiências. Lembro-me de tantas expressões, cenas, detalhes pequenos que movimentam minha vida até hoje. Houve um dia em que dividi com você meus pensamentos sobre nós e ouvi você me dizer, indiretamente, tudo aquilo que cabia à mim mas que eu não gostaria de ter ouvido. Neste dia eu cresci. Houve também o dia em que você me quis longe de você, mesmo estando a 1 metro de mim. Neste dia eu senti o seu tamanho dentro de mim e nos dias que se seguiram eu me culpei por não ser boa o suficiente. Eu sofri.

Só meu

"Acontece que ele não me amava como eu esperava. O que eu estou querendo dizer é que eu entendo como é se sentir a menor e a mais insignificante das criaturas do mundo e isso faz você sentir dores em lugares que você nem sabia que existiam no corpo.

E não importa quantos penteados você fizer ou as academias em que entrar ou quantas taças de chá tomar com as amigas, você ainda vai pra cama toda noite pensando em cada detalhe, imaginando o que fez de errado e como pode ter interpretado mal e como foi que por um breve momento você achou que podia ser tão feliz.

Às vezes você até consegue se convencer que ele, num passe de mágica, virá à sua porta e depois de tudo isso, demore o tempo que tem que demorar, você vai pra um lugar novo, conhecer pessoas novas que vão fazer você se valorizar e pedacinhos da sua alma vão finalmente voltar e aquela época turva, aqueles anos ou a vida que você desperdiçou, tudo isso começa a se dissipar."

Ele sabe.

Doei-me

Estou aqui para lhe dar toda a alegria que antes ninguém deu. Além de não lhe darem nada, ainda tiraram de ti toda esperança e vontade de ser alguém melhor.

[espaço para um palavrão bem feio]

Como dizia, eu vim para lhe fazer feliz de novo. Sim, sei que é uma tarefa bastante complicada, que exige muito da minha paciência, dedicação e carinho mas estou disposta, juro que estou, porque você merece. Me comprometo agora a ser melhor, por você. Pra te alegrar, te deixar em paz com o mundo, te ver crescer e te ajudar em seu desenvolvimento. Aceito fazer parte de sua vida e deixar meu nome tatuado na sua história. Estou aqui e coloco-me à sua disposição para tudo que precisar, pois hoje não somos mais eu e você, hoje somos nós.

2.6.10

Cacos

Cuide de mim, por favor. Sinto-me tão frágil, sensível a qualquer toque um pouco mais forte do que o habitual. É que essas pessoas a meu lado me afugentam! Causam em meu peito um furor que dói tanto que chega a perfurar meus escudos mais resistentes. Todas as palavras, uma a uma, cortam meu corpo de maneira feroz e sinto-me abandonada. Já posso voltar para meu casulo? Não sei mais voar e brilhar como borboleta, me perdoe. Todo dia é dia de pensar no que fazer e nunca é dia de fazer. E o que fazer? Me deixe chorar baixinho, assustada com a força dos gestos e palavras deles. Me deixe ver o horizonte com um olhar perdido em lágrimas honestas, saídas da mais pura dor em meu peito. Deixe-me encolhida em um cantinho da casa vazia para que ninguém se lembre (como se em algum momento já tivessem se lembrado) de que ainda existo ali, incomodada com a realidade amarga que nos envolve. Não venha nem faça nada, meu sofrimento é inevitável e não há cura vinda de você. Não precisa nem sorrir, nem chorar, nem encontrar meus olhos pois eles já não lhe veem, estão cegos. Meu peito explode e pedacinhos miúdos de mim se espalham por todos os cantos. Deixe-me, ainda há muito a recolher.

Feriado interior

Me desligo, em partes, deste universo barulhento, sanguinário, complicado, irritante e tenso que me rodeia. Quero a paz, o silêncio da natureza a me mostrar que ainda existe uma esperança pra sonhar. Estou indo para que, ao voltar, minha alma retorne pura novamente, como que transpassada em uma fonte rejuvenescedora. Desejo que o caminho seja tranquilo, que a estadia envaideça meu ser e que, ao retornar, eleve meu espírito a algo há muito inatingível mas que sei, de todo o coração, que já fora alcançado outrora. Abdico do que me faz feliz neste momento pois esta felicidade, sim, esta em que me encontro, não passa de alegria superficial banhando meu semblante sem tocar intensamente meu interior. Anseio por um mergulho em minha história, para que consiga eliminar todas as reticências e vírgulas que impedem um final comportado. Saio de mim para entrar novamente, agora com outra visão, algo mais nítido e objetivo. Buscarei o encontro perfeito, sem interrupções, sem medos, sem 'eus' debatendo entre si. Eu desejo o equilíbrio e mais, desejo de volta o antes.

Vou-me embora pra Pasárgada.