29.6.10

Filhos

- Nem gosto de falar de família, não... (um silêncio amargurado) eu tenho três filhos, sabe? Qualquer um queria ter os filhos que eu tenho, são os filhos que todo mundo quer mesmo... (novamente o silêncio enquanto seleciona as palavras menos perfurantes) e eu sou o pai que muita gente por ai queria ter...
- Ah, eu amo os meus filhos, sempre tenho que ver eles
- ... mas meus filhos pra mim não tem valor nenhum... (sangra devagar com cada frase dita) eu preferia ter um filho bandido, Deus me perdoe, mas que batesse no peito e falasse 'eu amo meu pai'.
- (espanta-se)
- Eu preferia ter uma filha put* que batesse no peito e dissesse 'eu amo meu pai' (desola-se)
O amargo das lembranças individuais interrompe a conversa como uma facada no ar.
- Meus filhos... eu tenho sempre que ver, se fico um dia sem ver esses meninos, não me aguento de saudade... e olha que já são tudo crescido...
- Meus filhos não querem saber de mim... eles pensam que porque eu separei da mãe deles é cada um no seu canto assim... não me procuram, não vou correr atrás. No meu aniversário, em dia de ano... ninguém tá nem ai pra mim. Boa mesmo é a minha mãe, essa sim, tem noventas anos e tá mais enxuta do que eu... se eu fico doente se preocupa e prepara tudo do jeito que eu gosto... essa eu faço questão de ver todo dia, agora os filhos? (a tristeza volta em uma jorrada intensa) Se eu pular na água minha mãe pula atrás pra me ajudar... meus filhos não querem nem saber se morri ou se sei nadar...
(pensamentos longe, lembranças ardentes)
- Meus filhos? Eu vevo minha vida aqui e eles vevem a deles lá... bem longe...
E calou-se, com uma bola gigante de amargura e dor em sua garganta, afastando a saudade e as memórias cruéis de sua mente e coração magoados.

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