Vemos – que o moço de chapéu-coco senta-se a um canto, a outro a moça de saia de pregas. Ignoram-se. Ambos escondem cinzas, poucas, no coque e sob o chapéu. Têm o rosto cansado, mas sereno.
E sabemos – que o moço, matemático, perdeu a mulher pra cantor (de boleros). Às vezes, chora. Não tem vícios. Gosta de carrosséis, à noite. Cultiva cravos.
A moça nunca arranjou marido. É enfermeira (mas quis ser trapezista). Quer filha, pra chamar de Alice. Sente frio.
Se o moço visse a moça, se a moça visse o moço, haveria comoção, queda de amores. Piscariam os grandes olhos tépidos. O moço daria à moça o cravo em sua lapela, seu negríssimo sobretudo. Mentiria – que é muito poeta, tocador de acordeão.
A moça estenderia a mão com luva, tentaria sorriso nunca usado. Saberiam, ambos. Dar-se-iam o medo de que o outro morresse, fugisse – o acender de luzes pra ver se o outro tem um corpo, e dorme.
Se vissem, apenas vissem, ela seria Mafalda, ele Armando, de sobrenome mesmo. Assinariam papéis. Na boda, Mafalda usaria lilás, já tão cheia de Armando, de Alice: Alice seria frágil, de doçura tanta... Teimaria em andar descalça (menina, nesse chão gelado!), enquanto a mãe lhe tricotasse longas meias, e para o pai um cachecol vermelho.
Se, apenas se, iriam ao circo, andariam de carrossel, à noite – Alice sorrindo, sem os dentes da frente. Seriam três, por aí, tão juntos (cuidado com o vento, os carros, o sangue, os insetos). Seriam três, e a certeza de um beijo, se o quisessem, e não respirar sozinho.
Mas eis que chega a hora de partimos. É cada vez mais tarde. O moço, que tinha nas mãos o chapéu-coco, devolve-o à cabeça. A moça ajeita a saia de pregas. Levantam-se.
E caminham, os dois, para ruas opostas, na direção de prédios muito altos."
Por Ana Santos, fofíssima.
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